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Exposição de fotografia fotoquímica subordinada ao tema do Narcisismo, numa perspectiva feminina. O espaço construído, encenado, patente nesta série fotográfica evidencia o estilhaçamento do Eu, fomentando a imaginação e o sonho proporcionados pelo reflexo fragmentado gerado pela superfície do espelho. As micro-narrativas ambíguas, nas quais cabe ao espectador a cumplicidade da produção de um significado, evidenciam o seu carácter poético, num reflexo do mundo onde o corpo é eleito como tema para uma reflexão sobre a fragilidade do Eu.

Narcisa
Double Life
As estratégias auto-representativas estiveram desde sempre ligadas à criação artística, com especial ênfase nos últimos quarenta anos. Desde as grutas de Altamira às representações egípcias, à escultura grega, a representação de si próprio ou do Outro, parece estar intrinsecamente ligada à génese artística.
A obsessão actual com a corporalidade, com a relação entre o sujeito e a sua imagem, não é paradigma das artes plásticas, podendo ser encontrada tanto na literatura como na dança contemporânea. Na arte contemporânea podemos observar que preside um certo imaginário intrínseco de criação de um mundo próprio, o qual já não é mero espelho do mundo, obrigado a reflectir fielmente o que o rodeia, mimético, com uma estética que permita aceder a níveis metafísicos superiores mas sim um mundo fragmentado, que gera novas visões, um relativismo de perspectivas, elegendo o corpo como tema que permite uma reflexão sobre o estilhaçamento do Eu e sobre a sua fragilidade. O espelho surge então como objecto que favorece a imaginação, o sonho. A transparência do espelho é comparável á superfície da água que, no mito de Narciso, «enuncia quer o desejo de retorno uterino, quer o desejo de fusão no Uno, e a forma como estes coincidem com a morte» (Margarida Medeiros, Fotografia e Narcisismo – O auto-retrato contemporâneo, Assírio e Alvim, Lisboa, 2000). Assim sendo, o espelho não possui constantemente um carácter positivo, funcionando por vezes como fonte de enganos, instigando e fragmentando o ser pela projecção de duplos persecutórios, muitas vezes referidos como fantasmas, sombras ou simulacros do sujeito. Podemos também observar uma qualidade de ruptura que o espelho opera na construção específica destas imagens: ele funciona como abertura, como escapatória. O sujeito olha-se dentro do espelho, mas o que significa este dentro? A relação desta questão com a identidade, com o papel desse Outro e da estranheza provocada por essa ilusão é um aspecto central na obra. Tal como o espelho, a fotografia é geradora de espectros, ao deitar os objectos sobre o papel (com toda a conotação com a horizontalidade versus verticalidade). Roland Barthes falanos da ideia de Spectrum, ao falar do sentir de uma fotografia: assim que permito ser fotografado, torno-me num espectro, numa sombra. O carácter mimético proporcionado pela fotografia é aqui posto em causa, pois deparamo-nos com uma fotografia encenada, construída. Apesar do lado de construção patente nesta série fotográfica, este carácter de veracidade permite um jogo labiríntico, ao afirmar pelo seu suporte que aqueles objectos, aquele espaço e aquele sujeito existem na realidade e que partilharam aquele espaço durante, pelo menos, alguns instantes cooperando com uma ideia geral de estranheza. Quando revelada a fotografia, o que ela captou já se encontra na realidade transfigurado, embora o próprio termo revelação, demonstre esta expectativa de veracidade da fotografia. O corpo fragmentado que nos é dado a conhecer, que nos é revelado através de um reflexo, contribuem para uma sensação de estranheza, de se ser o observador de algo que é e não é a sua própria existência, presenciando assim a alteridade do Outro através do reflexo de si próprio. Há aqui uma sensação de proximidade, quase de violação de uma intimidade, de um espaço outrora velado a que agora temos acesso, embora por vezes este seja parcial e fragmentado.
Uma outra questão é a narrativa ambígua que emana destas fotografias, quase de micro-narrativas dúbias, já que por vezes estas assumem um carácter quase poético, mas nas quais a tensão e a estranheza patentes se revelam nos pormenores e na presença, implícita ou não, de um segundo sujeito. É no indizível que a narrativa ganha força, na construção e composição da imagem, bem como nas relações sugeridas entre os vários objectos e sujeitos que povoam estas imagens. Por não haver um sentido claro, cabe ao espectador a cumplicidade da produção de um significado.
Ana Teresa Vicente |